terça-feira, 30 de outubro de 2018

Técnica de Alexander

"Todos querem estar certos, mas ninguém se detém para verificar se a ideia do que é certo está certa"
F.M. Alexander


A abordagem tradicional da aprendizagem baseia-se na transmissão, para as crianças, de um certo corpo de conhecimentos considerados essenciais para o seu desenvolvimento mental. Esses conhecimentos são apresentados "de fora para dentro", de maneira disciplinada e intensamente estruturada. As matérias não se relacionam, necessariamente, umas com as outras e não há nenhuma preocupação em tornar o material relevante para a experiência do aluno. A tarefa da criança é absorver o conhecimento e reproduzir-lo em provas. Quem não consegue fazer isso é considerado um fracassado.
A velocidade do desenvolvimento tecnológico e científico envolve mudanças e inovações tão rápidas que exigem que os indivíduos saibam pensar por si próprios e se adaptem a diferentes circunstâncias. A filosofia "progressista" da educação tem por objetivo suprir essa necessidade. Baseia-se no princípio de educação "de dentro para fora", onde, num ambiente livre e relativamente desestruturado as crianças são incentivadas a aprenderem a si próprias, sempre que possível através da experiência direta.
A aplicação em grande escala desses ideais é uma tarefa muito complexa que exigiria uma transformação radical da natureza de nossa sociedade. A Técnica de Alexander é um método prático através do qual se pode dar início a essa exploração, criando uma modalidade de educação envolvendo a totalidade das atividades humanas, desde o nível fisiológico através dos níveis intelectual, moral e prático, até o nível espiritual. Uma educação que, ao ensinar às crianças um melhor uso de si mesmas, é capaz de preservá-las da maioria das doenças e maus-hábitos. Uma educação que, pelo treinamento da inibição e controle consciente, daria aos homens e mulheres os meios psicofísicos para se comportarem racional e moralmente. Uma educação dedicada ao desenvolvimento da responsabilidade individual e à libertação do hábito impensado. Indivíduos educados para dominarem a si mesmos.


Ao observar o comportamento das crianças, surpreende-nos o desprendimento com que exploram o seu meio - livre movimento das pernas, dos braços, que se estendem em direção ao desconhecido. Seus erros tornam-se parte da experiência e elas não se deixam intimidar pelo fracasso; não sentem vergonha, raiva ou constrangimento, mas apenas um desejo renovado de prosseguir sua exploração. Nós, adultos, destruímos grande parte da capacidade intelectual e criativa da crianças através daquilo que fazemos e as obrigamos a fazer. A destruímos principalmente pelo medo: desenvolvem o medo de não fazer o que outros querem que ela faça, de não agradarem, de fracassarem, de errarem.
Fazemos assim com que tenham medo de arriscar, de experimentar, de tentar o difícil, o desconhecido.
O aprendizado deve ser desassociado do "difícil", "trabalho penoso", "persistência", "escola", "professor", "recompensa", "aprovação externa"!

Utilizado como recurso didático/educacional, a Técnica de Alexander amplia a percepção das reações estereotipadas ao medo Primeiramente, tornando-as mais acessíveis à consciência, para compreendê-las, depois solucioná-las, evitando que reprimam a capacidade de aprender.

   1. Superando o medo;
   2. Desenvolvimento da atenção;
   3. Atenção ao processo;
   4. Avanço do conhecido para o desconhecido;
   5. Desprendimento de "certo" e "errado";
   6. Pensamento experimental;
   7. Cinestesia;
   8. Não-interferência.

A TA implica uma tentativa contínua de descoberta e liberação de nós mesmos de camadas cada vez mais profundas de interferências com nosso funcionamento natural.
A TA desenvolve a confiabilidade e coordenação cinestésica, tornando mais fácil o aprendizado de qualquer habilidade (aprender a cantar, andar de bicicleta, correr, fazer malabarismos, leitura dinâmica, escrever...).
A mudança que a TA pretende é fundamental. Dela faz parte desistirmos de nossos hábitos mais íntimos e confortáveis e assumirmos uma responsabilidade cada vez maior por nós mesmos. Não é um processo rápido, ou fácil.


Por onde podemos começar?


É preciso evitar os juízos de valor (certo vs errado, bom vs mau, bonito vs feio, etc)
O primeiro passo no sentido de uma mudança real é a observação e aceitação daquilo que é.

Comece agora mesmo, conscientizando-se daquilo que você está fazendo ao ler esse texto. Você está notando alguma tensão desnecessária em seus dedos, mãos, braços, ombros, pescoço, maxilar, olhos, estômago, abdome, quadril, pernas, costas?
O alinhamento do seu corpo está equilibrado?

Perguntas como essas podem ser difíceis de responder devido a uma percepção sensorial enganosa. Para obtermos uma percepção mais clara da maneira como usamos a nós mesmos é útil termos pontos de referência específicos. Um deles é o espelho.

Fique de pé em frente a um espelho e observe-se.
Sua cabeça está inclinada?
Um ombro é mais baixo do que o outro?
Quando você se abaixa, se curva pelo quadril ou pela cintura?
Explore suas articulações, seu local exato e suas variações de movimento.
Sem sapatos, permaneça de pé por três ou quatro minutos, com o peso distribuído uniformemente e observe essa distribuição, observe seu equilíbrio.
Levante uma perna do chão e observe.
Feche os olhos e observe o que acontece quando você começa a perder o equilíbrio.

Observe a respiração.
Não tente mudá-la, ou melhorá-la conscientemente.
Ela irá naturalmente se você criar condições adequadas em todo o organismo, alternando seus padrões de tensão que influem nela.

Se você abraçar seus joelhos por 20 segundos e observar os efeitos sobre seu diafragma e respiração terá uma noção de como esses padrões funcionam.

Apenas observe. Tentando não influenciar de nenhuma forma. Observe os reflexos sobre seu pescoço, tórax, ombro, pélvis, joelho, enquanto respira. Observe o ritmo e como ele se modifica quando você começa a se mover.
Volte a atenção para sua respiração enquanto executa as mais variadas atividades cotidianas.


Deite-se no chão e observe o relaxamento dos músculos habitualmente tensionados quando se está de pé.
Sinta um contato cada vez maior com o chão.
Imagine-se levantando e observe onde surgiram tensões.
Faça isso enquanto executa um movimento de levantar-se por etapas. Observando progressivamente o surgimento de tensões, forças, ajustes, etc.

A qualidade da voz e respiração é outro ponto importante. Comece a ler esse texto em voz alta e ouça o som da sua voz. Depois de algumas frases puxe a cabeça para trás e observe as mudanças em seu tom de voz.
Tome um verso ou uma vogal sussurrada (ex: "aaaaahhhhh") e repita-a ocasionalmente durante o dia enquanto estiver executando as mais variadas atividades.


A área de observação mais importante é a natureza e velocidade das reações.
Treine a inibição primeiramente com estímulos externos usuais, como o toque do telefone ou campainha. Treine ficar em total inatividade, sem se fixar de forma alguma.
Parar adequadamente significa não interferir na respiração nem ficar tenso antes de se mover.


Mais do que os grandes eventos - traumas e êxtases - o que determina a qualidade de nossas vidas é a escolha que fazemos da maneira pela qual nos conduzimos a cada dia a dia.


Observe também as outras pessoas. Sem juízos de valor.
Como elas usam a si próprias?
Elas parecem flutuar ou estar presas ao chão?
Tente perceber as tensões distribuídas.


Instrução

A instrução consciente acaba por tornar-se apenas uma questão de saber para onde se está indo. Exatamente no momento em que você está lendo estas palavras, sua cabeça, ombros e joelho estão seguindo uma determinada instrução. Você estava consciente disso? Escolheu esse padrão?
A atividade de cada uma das suas partes reflete a sua orientação como um todo.
A instrução trata-se apenas de pensar "para cima".

Estudos sugerem que há uma relação muito mais estreita entre o pensar e o fazer do que até então se havia imaginado.
É possível perceber reações musculares ao desejo, à vontade, ou simplesmente à atenção voltada a um músculo / parte específica do corpo.

A atenção, no sentido que lhe é dado por Alexander, envolve uma consciência equilibrada de nós mesmos com o meio ambiente, além de uma ênfase natural em tudo o que, no momento é particularmente relevante.

Alexander enfatizou sempre o PROCESSO de atingir seu objetivo e não o objetivo em si. A maioria de nós deixa que o campo de nossa atenção seja dominado por objetivos imediatos; deu a isso o nome de "busca pelos fins". Ao se adotar essa abordagem, qualquer tentativa de mudança de hábitos corporal resultará em um reflexo automático dos músculos e em um mau Uso do organismo. (ex:  "endireite a coluna", "abaixa o ombro".
Alexander chamou o método indireto de mudança de abordagem dos meios-pelos-quais, que pode ser definido como "consciência das condições atuais, consideração racional de suas causas, inibição das reações habituais e desempenho conscientemente orientado da série indireta de passos necessário para a busca do fim"

> O primeiro dos meios é o mais importante fim a ser descoberto.

Em tudo o que diz respeito à vida, os bens mais substanciais só podem ser alcançados por meio da abordagem indireta. A religião, por exemplo, é inútil quando há busca por vantagens imediatas. É axiomático que o devoto deva, primeiro, buscar sua própria experiência de religião/espiritualidade no dia-a-dia.

O maior desafio é atingir a "mente do dia-a-dia". Ao atingi-la, o homem, embora sem pensar, conhece suas reais necessidades: dorme quando está cansado, come quando tem fome, somente o suficiente para satisfazer essa fome, etc. Ele é um artista Zen da vida. Ele tem seus membros, seu corpo, sua cabeça e demais partes. A sua vida-Zen expressa-se por intermédio desses instrumentos importantes à sua manifestação. Suas mãos e pés são seus pincéis e o universo inteiro é a tela em que ele retrata a sua vida.

> Observe uma simples folha de bambu. Sob o peso da neve ela curva-se cada vez mais. De repente a neve desliza para o chão sem que a folha tenha feito o menos movimento.
Seja assim nos momentos de tensão, para que aquilo haja por você. Tornando-se criativo, a distinção entre fins e meios desaparece.


Inibição

Não recebemos um treinamento sistemático e prático para inibição consciente e, assim, não exploramos o plano potencial de nossa capacidade inibitória para a preservação de nosso equilíbrio psicofísico. A TA desenvolve esse poder inibitório de uma forma que inclui o organismo todo e não apenas o intelecto.
Nos primeiros estágios de uma sequência de aulas, a responsabilidade principal do aluno é evitar qualquer reação desnecessária à intervenção do professor. Com as mãos, o professor orienta o aluno em direção a um Uso mais equilibrado de seu Controle Primordial e depois faz com que ele execute alguns movimentos simples. Na medida em que se amplia a experiência do aluno, ele pode começar a perceber as manifestações "natas" de suas reações habituais. Por exemplo, pode perceber como sua noção de "ficar em pé" está associada a uma tendência a enrijecer o pescoço, por exemplo.
Alguns professores propõe jogos como: "dentro de um minuto eu vou pedir-lhe que diga "oi", mas gostaria que você não desse resposta". Quando o professor diz "por favor, diga 'oi' ", o aluno em geral responde dizendo "oi" ou "o..." ou simplesmente contraindo excessivamente a faringe.
A intensa experiência cinestésica que geralmente se segue ao funcionamento aprimorado do CP ajuda a desenvolver a consciência e a coordenação.